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SBGG Entrevista: Ana Beatriz Galhardi Di Tommaso, presidente da Comissão Permanente de Cuidados Paliativos

19/10/2018

Falar sobre a morte, escolhas de tratamentos e terapias após a perda da capacidade funcional ou mesmo aceitar o estado terminal de uma doença pode ser muito difícil para pacientes e familiares. Entretanto, os cuidados paliativos são uma importante ferramenta para ajudar a compreender melhor o conceito de finitude e viver bem mesmo com uma condição terminal.

Em um cenário de envelhecimento populacional, com estimativa de que até 2060 tenhamos 73 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais, convidamos a presidente da Comissão Permanente de Cuidados Paliativos da SBGG, a geriatra Ana Beatriz Galhardi Di Tommaso, para explicar como funcionam os cuidados paliativos e qual a importância desta área nos próximos anos.

Além da Comissão, a Sociedade possui um vasto material sobre o assunto a fim de estimular o conhecimento técnico e científico para profissionais ligados ao envelhecimento.

O que é cuidado paliativo?

Podemos dizer que o cuidado paliativo visa o acompanhamento e o controle dos sintomas e de outras demandas que possam existir num paciente que tem uma doença potencialmente incurável. Não existe só o sintoma físico, o paciente também precisa de um suporte nutricional, social e organização, entre outros. O profissional da área de cuidados paliativos tem esse olhar mais amplo, com relação à saúde e a todos os aspectos que envolvem a doença, o paciente e sua família.

Como funciona o trabalho com a equipe interdisciplinar?

O cuidado paliativo bem oferecido tem essa proposta de ser interdisciplinar. Diversas equipes trabalhando em conjunto e cada um fazendo contribuições no cuidado no peso e na medida que a demanda exige. Ninguém é mais importante que ninguém, pois todo mundo tem papel igualmente importante para ajudar na melhora na qualidade de vida do paciente.

Atrelado aos cuidados paliativos, também é feito o cuidado com a doença?

Estimulamos que sempre seja feito um acompanhamento integral, amplo e de acordo com a necessidade do paciente e da doença. O cuidado paliativo não impede e nem substitui o cuidado da doença de base.

Como é a abordagem com o paciente e com a família?

O primeiro passo é ter uma clareza ou procurar de todas as formas encontrar explicações para as doenças e entender se realmente não há um tratamento com possibilidade de cura. Nós não desistimos da investigação e, em paralelo, existe o acompanhamento em conjunto para controle dos sintomas. Uma vez que a doença é considerada progressiva e sem possibilidades terapêuticas, naturalmente o paciente e a família são informados e participam dessas reuniões, ou seja, se envolvem. Ser paliativista é atender o paciente e a família, acompanhando em conjunto o tratamento e as possibilidades terapêuticas

Qual o papel do psicólogo?

Temos pacientes que aceitam e gostam bastante e outros que são mais reservados, mas o psicólogo e sua equipe têm papel fundamental no suporte ao paciente, família e muitas vezes também para a própria equipe de profissionais que está envolvida naquele caso. Como na saúde temos essa busca incessante pela cura, quando as equipes se deparam diante de algo possivelmente incurável, também é um baque. A equipe de cuidados paliativos também dá o suporte para outras equipes quando sentem que há necessidade.

 

Como a espiritualidade é levada para os pacientes e familiares?

Isso também é de acordo com a demanda. Não é uma obrigação, pois existem pacientes que não possuem crença e oferecer algo religioso neste momento precisa ter um sentido. O primeiro passo é conhecer a biografia do paciente e seu contexto social. Ele tem que entender que se for do desejo dele, nós temos como fazer com que esse conselheiro religioso participe dos cuidados. Há pacientes que precisam muito, outros que não acreditam em religião e outros que passam a acreditar ao longo do tratamento. Isso é muito particular.

Qual a importância das diretivas antecipadas de vontade?

As diretivas são a manifestação de vontade no momento em que o indivíduo tem autonomia para fazer a escolha. As DAV nesse sentido têm um olhar para a abordagem dos cuidados de saúde de acordo com nossas preferências quando estivermos acometidos de uma doença incurável e não tivermos condições de nos manifestarmos.

O médico e toda a equipe possuem o respaldo do Conselho Federal de Medicina para que, mesmo que a família não concorde, as DAV sejam respeitadas. Os profissionais da equipe de cuidados paliativos possuem essa função de dar segurança, proteger a autonomia do paciente e acolher a família que, certamente poderá ajudar a interpretar e entender os motivos daquelas escolhas pelo paciente.

É importante a questão lúdica para o paciente escolher aquilo que deseja na hora elaborar uma diretiva?

Cada pessoa possui características próprias, então pessoas mais objetivas conseguem em poucos minutos ou horas verbalizar e deixar isso muito claro. Mas a maioria, não consegue verbalizar de uma maneira assertiva. Nesse sentido, o Cartas na Mesa ajuda na primeira abordagem, trazendo os temas a serem discutidos. O importante é que o profissional da saúde tenha sido treinado para aplicação desta ferramenta para conduzir as discussões acerca da elaboração da DAV.

Cuidados paliativos são um tabu dentro das faculdades? 

Era um tema pouco discutido, mas hoje, participando da SBGG e dando aula na universidade, eu percebo que nós temos muito mais espaço para discutir o tema e que algumas vezes isso é proposto pelos próprios alunos. Acredito que estamos em um processo de quebra deste tabu e aumento do interesse, principalmente dos mais jovens, para entender qual é o sentido da medicina paliativa e quando ela deve ser aplicada.

Quais as diferenças dos cuidados paliativos de um idoso para uma criança com câncer, por exemplo?

As doenças de base determinam a velocidade de progressão, então há doenças que são mais lentas, e que demoram para promover um contexto de finitude, e outras mais rápidas. Especificamente na geriatria, nós temos doenças além do câncer, como demências e doenças crônicas sem possibilidade terapêutica que fazem parte do envelhecimento. Então o geriatra e o especialista em gerontologia precisam saber manejar, estudar e procurar entender a finitude.

Demência é um desafio grande para os cuidados paliativos?

O desafio é enorme. Não porque não há indicação paliativa, mas porque muitas vezes o assunto não foi discutido previamente enquanto o paciente possuía autonomia. Quando isso ocorre e a família não possui muitas informações sobre a doença, o geriatra precisa se aproximar para explicar as etapas da evolução das demências e ajudar os familiares a entender que são doenças incuráveis. Nos casos em que o paciente possui sua capacidade cognitiva comprometida e não há Diretivas Antecipadas de Vontade, é com a família que a equipe de saúde irá dialogar.

Qual o papel da Comissão Permanente de Cuidados Paliativos da SBGG?

A nossa Comissão Permanente de Cuidados Paliativos tem como missão disseminar o conhecimento para inspirar as pessoas a promoverem melhor cuidado não apenas no contexto de saúde plena, mas também no processo de adoecimento e morte.  A SBGG é pioneira na área de cuidados paliativos e na divulgação desse conhecimento e assim seguirá por muitos anos.

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