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Posicionamento da SBGG quanto ao alerta emitido pela ANVISA a respeito do uso de hidroclorotiazida e possível aumento do risco de câncer de pele não-melanoma

18/12/2018

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio da Gerência de Farmacovigilância, publicou recentemente um alerta sobre possível associação entre o uso cumulativo de hidroclorotiazida – um diurético com importante papel no tratamento da hipertensão arterial – e maior risco para desenvolvimento de câncer de pele não-melanoma (CPNM).

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), por meio do diretor científico Dr. Renato Bandeira de Mello, vem a público apresentar seu posicionamento de ressalva e contrariedade ao referido alerta com intuito de tranquilizar os pacientes usuários e médicos que o prescrevem.

A hidroclorotiazida, disponível gratuitamente pelo SUS, compõe o arsenal terapêutico de primeira linha para controlar a hipertensão arterial, com impacto significativo na redução de suas complicações, como os Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) e Infarto Agudo do Miocárdio. De forma relevante, conforme demostrado pelo estudo ALLHAT na década de 2000, os diuréticos tiazídicos, classe farmacológica a qual se insere a hidroclorotiazida, são os medicamentos com maior benefício relacionado à prevenção de AVC e insuficiência cardíaca em idosos com hipertensão (maior grupo atingido por esta condição).

Além dos benefícios terapêuticos relacionados à hidroclorotiazida, a SBGG posiciona-se de forma contrária ao alerta da ANVISA por entender que tal comunicado baseou-se em estudo com limitada capacidade para demonstrar relação de causalidade entre o uso da hidroclorotiazida e desenvolvimento de câncer de pele do tipo não-melanoma. O estudo “Hydrochlorothiazide use and risk of nonmelanoma skin cancer: a nationwide case-control study from Denmark”, utilizado como base pela Anvisa, dá a entender, de forma inapropriada do ponto de vista científico, uma associação causal entre o uso do referido medicamento e aumento do risco de câncer de pele não-melanoma. Apesar de existir (em teoria) plausibilidade biológica para tal relação, há importantes limitações intrínsecas ao tipo de estudo conduzido pelos pesquisadores que, por definição, não permitem concluir com precisão a relação de causa e efeito entre os fatores estudados, sendo somente possível levantar-se novas hipóteses.

Adicionalmente, análises complementares conduzidas pelo diretor científico da SBGG após extração de dados das tabelas e materiais suplementares do estudo original permitem identificar que o mesmo tipo de resultado seria demonstrado caso outros medicamentos (como corticoides, anti-inflamatórios e outros anti-hipertensivos) tivessem sido testados como possível fator de risco para a doença de pele em questão. Esse tipo de padrão sugere potencial associação espúria entre os medicamentos e maior frequência de câncer de pele do tipo não melanoma, ou seja, resultados encontrados por vieses na seleção de participantes e/ou pela presença de fatores confundidores não controlados, algo a ser previsto e imputado nas interpretações deste tipo de estudo.

Portanto, o estudo primário utilizado como base de sustentação do alerta publicado pela ANVISA NÃO OFERECE meios para conclusões científicas robustas de efeito causal entre o uso do hidroclorotiazida e o aumento do risco de câncer de pele não-melanoma.

Diante dessas razões, a SBGG vê com preocupação o referido alerta, sobretudo por potenciais impactos negativos desse posicionamento sobre a prescrição e adesão de tratamento acessível e eficaz para controle da hipertensão. Esta sociedade se compromete em manter-se atenta a futuros estudos científicos relacionados ao tema e aproveita este manifesto para reforçar a importância do controle da pressão arterial, dos cuidados com exposição solar excessiva e desprotegida e, igualmente, a importância de avaliação e acompanhamento médico em caso de desenvolvimento de lesões de pele suspeitas.

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